Na África do Sul, “endereços digitais”: uma solução para mapear favelas
Num país onde as desigualdades continuam a ser das mais elevadas do mundo, milhões de sul-africanos vivem em habitações ditas “informais”, muitas vezes construídas sem licenças e sem serviços públicos essenciais. Nos bairros degradados de Lawley Station, localizados a cerca de 40 quilómetros a sul de Joanesburgo, está em curso uma iniciativa inovadora para resolver um grande problema: a falta de endereços oficiais.
Os residentes destas comunidades informais enfrentam diariamente dificuldades no acesso aos serviços de emergência, na recepção de encomendas ou mesmo na simples informação da sua localização. Para compensar esta falta, uma ONG sul-africana desenvolveu um sistema de “mapeamento digital” que permite atribuir um endereço geolocalizado único a cada casa.
Uma iniciativa liderada por jovens do bairro
Nos caminhos de terra que cruzam a Lawley Station, jovens vestidos com trajes amarelos fluorescentes estão ocupados, medidores e smartphones nas mãos. Eles medem distâncias entre casas e registram cada localização em um aplicativo móvel vinculado ao Google Maps. Lesego Maphike, um dos voluntários, explica: “Este é um local de culto. Tentamos ser o mais precisos possível para facilitar a orientação dos moradores. » O aplicativo permite não só posicionar as residências, mas também identificar pontos importantes como igrejas, escolas e pontos de distribuição de água.
O projeto, financiado por organizações internacionais e parceiros locais, visa fornecer a cada agregado familiar um endereço digital único. Esses “endereços digitais” não substituem os endereços oficiais, mas oferecem uma solução temporária e prática, atendendo às necessidades diárias dos moradores.
Atender às necessidades essenciais dos moradores
Nestas comunidades informais, a falta de endereço complica a vida dos residentes em muitos níveis. Os serviços de saúde e de emergência, por exemplo, têm dificuldade em encontrar pacientes quando são chamados, e os serviços de entrega evitam frequentemente estas áreas, consideradas inacessíveis sem um plano de localização fiável. Com este sistema de mapeamento digital, os residentes podem agora fornecer um endereço preciso, facilitando uma intervenção rápida em caso de emergência.
Além disso, os residentes podem usar seu novo endereço digital para acessar serviços financeiros. No âmbito do projeto, os voluntários educam os residentes sobre a utilização da aplicação e os benefícios deste endereço digital, que pode ser utilizado nomeadamente para abrir uma conta bancária ou receber serviços de entrega.
Um passo em direção à inclusão social e ao desenvolvimento urbano
A iniciativa “endereços digitais” faz parte do desejo de tornar os bairros degradados mais visíveis e integrados nos sistemas urbanos e sociais. A cidade de Joanesburgo e outras cidades sul-africanas enfrentam uma pressão demográfica crescente, acentuada pelo êxodo rural e pela crise habitacional. A ONG espera que este projecto inspire outras iniciativas semelhantes em todo o país, contribuindo para um planeamento urbano mais inclusivo.
Para muitos, este mapa é também um símbolo de dignidade recuperada. “Ter um endereço, mesmo digital, é um reconhecimento da nossa existência”, afirma um morador da Estação Lawley.
Uma solução para o futuro das favelas da África do Sul
Embora o projecto-piloto na Estação Lawley tenha mostrado resultados promissores, a ONG planeia estender esta iniciativa a outros bairros precários do país. Estes “endereços digitais” poderiam representar uma solução transitória para os moradores de bairros degradados na África do Sul, ao mesmo tempo que realçam a urgência de uma reforma real da habitação e das infra-estruturas urbanas.
Ao fornecer uma resposta concreta às necessidades imediatas dos residentes e promover a sua inclusão social, estes “endereços digitais” mostram como uma simples inovação tecnológica pode transformar vidas e oferecer uma nova perspectiva para as populações marginalizadas na África do Sul.
