Guiné: Mamadi Doumbouya, rumo a uma candidatura presidencial apesar das proibições?

Guiné: Mamadi Doumbouya, rumo a uma candidatura presidencial apesar das proibições?

Declaração do porta-voz presidencial sobre uma possível candidatura

Na sexta-feira, 21 de setembro de 2023, durante um almoço de imprensa, o general Amara Camara, porta-voz da presidência guineense, manifestou claramente o seu apoio a uma possível candidatura do atual presidente da transição, coronel Mamadi Doumbouya, nas próximas eleições presidenciais. Ele disse: “Se Mamadi Doumbouya quiser ser candidato, eu o encorajarei. Ele não só tem a possibilidade em termos de direitos, mas também tem a qualidade exigida hoje.” Segundo Camara, a legislação actual não impõe quaisquer restrições legais que impeçam Doumbouya de concorrer nas próximas eleições.

Estas declarações rapidamente suscitaram debate, porque a “carta de transição”, estabelecida após o golpe militar de Setembro de 2021, estipula explicitamente que nenhum membro do governo de transição pode concorrer às eleições nacionais ou locais. Contudo, esta carta poderá em breve ser modificada pela adopção de uma nova Constituição, permitindo assim a Doumbouya procurar um mandato presidencial.

Rumo a uma nova Constituição para levantar a proibição?

As autoridades militares no poder na Guiné apresentaram um anteprojecto de Constituição em Julho de 2023, cujo objectivo é redefinir o quadro institucional do país. Este texto deverá ser submetido a referendo, potencialmente até ao final do ano. No entanto, ainda não foi definida uma data oficial para esta consulta popular e o anteprojecto já enfrenta forte oposição. Os principais partidos políticos, bem como diversas organizações da sociedade civil, rejeitam este texto, acreditando que permitiria aos militares prolongar a sua permanência no poder.

O General Mamadi Doumbouya, que tinha prometido publicamente em diversas ocasiões não concorrer à presidência após o golpe, poderia, no entanto, voltar atrás neste compromisso se a nova Constituição o autorizasse. Esta hipótese é cada vez mais plausível, especialmente depois de declarações recentes de vários membros do governo que sugerem uma flexibilização das regras relativas à candidatura de líderes de transição.

Um adiamento do retorno à ordem constitucional

Na altura do golpe, as autoridades militares tinham-se comprometido, sob pressão da comunidade internacional, a organizar eleições e a entregar o poder a civis eleitos até ao final de 2024. No entanto, este compromisso parece agora comprometido. As autoridades de transição anunciaram recentemente que todas as eleições destinadas a restaurar a ordem constitucional na Guiné não terão lugar antes de 2025. Este anúncio, feito pela Ministra guineense dos Negócios Estrangeiros, Morissada Kouyaté, perante diplomatas e representantes da Francofonia em Paris, levantou muitas perguntas.

O ministro indicou ainda que as eleições presidenciais poderiam ser organizadas primeiro, ainda antes da aprovação da nova Constituição. “Como é ao nível do poder judicial supremo que as populações e a comunidade internacional melhor percebem o progresso democrático, poderíamos até começar pelas eleições presidenciais como garantia de compromisso”, declarou.

Mamadi Doumbouya rumo a uma candidatura antecipada?

Amara Camara também sugeriu que o governo poderia concordar em realizar as eleições presidenciais antes da finalização da nova Constituição. “Os guineenses hoje têm sede de ver o rosto do seu futuro presidente (…) O governo está aberto a qualquer pedido para permitir a realização de eleições, mesmo que isso signifique começar pelas eleições presidenciais”, acrescentou.

Estes sinais mostram um movimento no sentido da organização de eleições, mas com a possibilidade de Mamadi Doumbouya poder concorrer, apesar das disposições iniciais da carta de transição.

Repressão e desafios políticos na Guiné

O clima político na Guiné continua tenso, marcado pela crescente repressão dos opositores políticos. Desde a tomada do poder militar em 2021, os protestos antigovernamentais foram proibidos e os meios de comunicação críticos têm estado sob pressão crescente. Muitos líderes da oposição foram presos, julgados ou forçados ao exílio. Os desaparecimentos de dois membros de um movimento de cidadãos em Julho, que exigiam o regresso dos civis ao poder, aumentaram ainda mais as tensões no país.

A Autoridade Independente de Supervisão Policial (IPOA) abriu várias investigações sobre detenções ilegais e desaparecimentos relatados após os protestos de 2023. Separadamente, as ONG estimam que pelo menos 60 pessoas perderam a vida durante manifestações de repressão policial organizadas para desafiar a continuação do domínio militar.

Conclusão

A Guiné encontra-se num importante ponto de viragem política, à medida que a transição militar se arrasta e surgem discussões em torno de uma possível candidatura do Coronel Mamadi Doumbouya às eleições presidenciais. Embora a carta de transição proíba teoricamente esta possibilidade, uma nova Constituição poderia levantar estas restrições. A questão do calendário eleitoral permanece obscura, mas as autoridades parecem favorecer uma eleição presidencial antecipada antes da adopção da Constituição. Num contexto de tensões políticas e de repressão, o futuro da transição guineense permanece incerto e a candidatura de Doumbouya poderá muito bem redefinir o equilíbrio político do país.

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